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Sinopse do Colóquio:
“A utilidade social da Psicanálise
– A Regulamentação em questão”
Aconteceu em Belo Horizonte, no dia 18 de setembro de 2004, na
Assembléia Legislativa de Minas Gerais, o Colóquio
"A utilidade social da Psicanálise - a Regulamentação
em questão". Tivemos a presença de 250
participantes, procedentes dos vários cantos do Brasil, e
de várias instituições psicanalíticas,
a saber: Sociedade Psicanalítica de São Paulo (IPA),
Escola Letra Freudiana, Escola do Campo Lacaniano, Percurso Psicanalítico
de Brasília, Associação Psicanalítica
de Porto Alegre, Círculo Psicanalítico de Minas Gerais,
Círculo Brasileiro de Psicanálise, GREP, Aleph e IEPSI
de Belo Horizonte. Tivemos ainda como participantes o Vereador de
Belo Horizonte José Tarcísio Caixeta, o Deputado Federal
de Minas Gerais Sérgio Miranda, o jurista Menelick de Carvalho,
o Professor Ricardo Menezes, da Faculdade de Medicina da UFMG e
representantes do Conselho Federal de Psicologia (CFP). O Colóquio
desenrolou-se de 9 às 18h, dividido em 4 mesas de trabalho.
Na primeira mesa, sobre "O problema da Regulamentação
da Psicanálise no Brasil", Sérgio de
Mattos colocou em pauta o tema da utilidade social da Psicanálise,
inspirado em um artigo de Jacques-Alain Miller publicado no Jornal
Le Monde de 30/10/2003, sobre "A utilidade social da escuta".
Enumerando as ameaças que pesam sobre a Psicanálise
no Brasil - projetos de Regulamentação, a lei do Ato
Médico e a recente fundação da Associação
Brasileira de Psicoterapia (ABRAP), Sérgio enfatizou a necessidade
de criarmos dispositivos que possam ir além do entusiasmo
de alguns militantes, pautando-nos por uma visão principiológica.
Devemos investigar quais são as especificidades da ação
psicanalítica no Brasil.
Maria Ida Fontenelle, do Percurso Psicanalítico de Brasília,
nos falou de sua intensa participação na luta contra
os dois projetos de lei para regulamentar a profissão de
psicanalista, ambos já retirados, graças à
Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras,
que vem, desde o ano 2000, reunindo psicanalistas de diferentes
instituições numa luta contra a regulamentação
que tem dado resultados positivos.
Mário Lúcio Alves Batista, da Sociedade Psicanalítica
de São Paulo (IPA), ressaltou que, para os lacanianos, a
posição anti-regulamentação é
de doutrina, enquanto na IPA se trata de uma questão político-ideológica.
Ele se mostrou menos otimista quanto às possibilidades de
barrar os projetos de Regulamentação, considerando
que os projetos de lei sobre o Ato Médico e a criação
da ABRAP instrumentam o legislador e nos enfraquecem.
Para Romildo do Rêgo Barros, debatedor da primeira mesa,
a psicanálise deixou de ter como paradigma clínico
a histeria, e assim se arrisca a ser algo como um objeto de compulsão
ou do consumo, comparável, como foi dito, a “um sanduíche
do McDonald’s”. Ele lembra que, desde 1975 já
tivemos uns 6 Projetos de Regulamentação. O que há
de novo é que não somos mais um grupo de psicanalistas
isolados contra a Regulamentação, mas um grande movimento,
o que implica em novas responsabilidades.
Angelina Harari pergunta se a união da Articulação
é contra o charlatanismo da SPOB (Sociedade Psicanalítica
Ortodoxa do Brasil).
Jésus Santiago comenta que a SPOB traduz a proliferação
das psicoterapias. A ABRAP é anti-charlatã mas pró-Regulamentação.
Na orientação lacaniana somos contra a regulamentação,
mas nos preocupamos com a formação.
Bernardino Horne retoma um dos pontos levantados por Sérgio
de Mattos: é importante que o mundo saiba que a psicanálise
não está mais fechada nos consultórios, mas
trabalhando em diversos lugares da cidade.
Na segunda mesa, sobre "O que significa regulamentar?",
Ricardo Menezes, professor de clínica médica da UFMG,
comentou o Projeto de lei sobre o Ato Médico e a dificuldade
em obter dos médicos um ponto de vista crítico sobre
o assunto.
O Deputado Sérgio Miranda discorreu, a nosso pedido, sobre
o que significa regulamentar uma profissão. Ele concordou
com o ponto de vista de Sérgio de Mattos, segundo o qual
as tentativas de Regulamentação são contra
uma tendência à desregulação, destacando
também uma tendência ao corporativismo. Regulamentar
determinadas profissões é um cerceamento. As tentativas
de regulamentação são muitas vezes destinadas
a proteger uma profissão contra a competição.
Costuma-se confundir Regulamentação com garantia,
mas ela se destina a impor limites. A Regulamentação
só se justifica se o interesse público a exigir, ou
seja: a Regulamentação deveria defender a sociedade
e não o segmento profissional. Os projetos de Regulamentação
da Psicanálise foram oportunistas, para beneficiar determinados
setores. O diálogo que se estabeleceu entre os psicanalistas
e o Deputado, para lutar contra esses projetos de Regulamentação,
ele diz, deve continuar.
Marcus Vinicius de Oliveira e Silva, do CFP, acha que estamos passando
de um momento mais defensivo a um mais propositivo. No Brasil, 50
mil de 130 mil psicólogos praticam psicoterapias e 15 mil
estão desempregados. Ele crê que a regulamentação
da profissão é destinada a proteger a subjetividade
do trabalhador. A ABRAP não seria corporativista porque inclui
várias categorias profissionais.
Jésus Santiago, debatedor desta mesa, retoma a necessidade
da identificação profissonal como tentativa de regular
o que não é regulamentável. Os psicanalistas
seriam por definição anti-corporativistas. Jésus
compara o psicanalista ao militante marxista.
Romildo concorda, dizendo que ser militante também é
uma profissão impossível, ao lado das três destacadas
por Freud: governar os povos, educar e analisar, porque o militante
se ocupa dos restos do que é governável. A Psicanálise,
por sua vez, se ocupa dos restos não regulamentáveis.
Para Ram Mandil, a ABRAP vai no sentido de definição
do ato psicoterapêutico, como se o ato pudesse ser definido
a partir da lei. Para a psicanálise é o ato que funda
a lei.
Maria Lúcia Coimbra, do Círculo Psicanalítico
de Minas Gerais, lembra que Lacan disse que a Psicanálise
era apenas uma profissão difícil. Um ponto de vista
exterior nos permite sair da debilidade do nosso discurso.
Para Marcus André Vieira, pensar nossa relação
com o real exige que nos coloquemos de outra maneira diante do universal.
O Deputado Sérgio Miranda lembra que a lei do Ato Médico
está na pauta e ressalta a diferença entre agente
público e privado. Para o privado, tudo o que a lei não
proíbe está permitido; para o público, tudo
que não é permitido é proibido.
Jésus conclui que a Psicanálise sempre teve que se
haver com a suspeição do Outro. Um ponto exterior
é sempre importante para nós.
Na terceira mesa, sobre "Psicanálise, Ciência
e Sociedade", o jurista Menelick de Carvalho nos trouxe,
de maneira muito interessante, noções sobre como o
direito regula a sociedade. O que se encontra em crise hoje é
a noção de norma como regra. O Direito é feito
para regular o futuro, a lei não retroage para regular ninguém.
Se o Direito protege contra isso ou aquilo, é porque isso
ou aquilo pode ocorrer. Os direitos fundamentais são princípios
e não regras. Menelick traz uma leitura da máxima
universal de Kant por Klaus Günter. O problema é tentar
aplicar um princípio como se fosse uma regra. O Direito não
termina, mas apenas começa com a legislação.
Hoje, se temos uma lei regulamentando algo, ela deve dar legalidade
a alguns princípios. Uma norma universal não pode
ser aplicada como queria Kant. Após os anos 60 entrou em
voga a principiologia. Quanto mais se atém aos princípios
melhor, mas nada é tão simples no Direito. O trabalho
legislativo é periférico e não central.
Paulo Becker, da Escola Letra Freudiana, concorda que temos que
nos ater aos princípios. Freud dizia: quanto mais palavras,
mais deformação. A lei trabalha com possibilidades.
A psicanálise está “onde o sapo não pula,
o passarinho não voa, o escorpião não morde,
porque é neurótico”. Com Freud, ficamos fora
da regulamentação: sendo para poucos, a psicanálise
acabou sendo para todos. A cultura foi incluindo a psicanálise,
sem que ela fizesse nenhum discurso do social. O que há é
o laço social do discurso analítico, fundado nos conceitos
fundamentais de Freud. A subjetividade está articulada ao
sintoma. Nenhuma regulamentação poderia inibir o direito
ao ofício. Não temos mais a pretensão de fazer
da Psicanálise uma ciência, embora o Congresso Evangélico
de Psicanálise tenha a pretensão de provar que a psicanálise
é uma ciência através da neurociência.
Fernanda Otoni, da EBP-MG, demonstra uma mobilização
deflagrada pela ação lacaniana. Criamos respostas
à altura das demandas. Cabe à Psicanálise acolher
os restos produzidos pela sociedade científica. A Psicanálise
salva vidas, ainda que não seja esse seu objetivo. Ela é,
para Lacan, o pulmão artificial na era da tecnologia científica.
Ela introduz a invenção do saber do sujeito na produção
do laço social. Diante de uma crise entre a Justiça
e a Saúde Mental, a psicanálise, anti-manicomial por
princípio, liberta a verdade do ato, responsabilizando o
sujeito. A Regulamentação, ao contrário, não
demonstra a responsabilidade. Fernanda demonstra a utilidade social
da psicanálise através de um projeto de trabalho com
loucos infratores, o PAI-PJ, mencionando também outros Programas
implementados por psicanalistas lacanianos na secretaria Municipal
de Belo Horizonte: Liberdade Assistida e Fica Vivo.
Marcela Antelo, debatedora desta mesa, pergunta como podemos falar
em utilidade social da psicanálise sem fazer da psicanálise
apenas algo útil, como os pastores evangélicos.
Para Romildo, a única possibilidade de não considerar
a utilidade é pensar o ato como puramente estético,
mas mesmo assim ele teria consequências éticas.
Sérgio de Mattos lembra que Jacques-Alain Miller opôs,
em seu Curso "Um esforço de poesia", utilidade
direta e indireta.
Sérgio Laia pergunta que uso vamos fazer da utilidade da
psicanálise.
Menelick aponta que o vácuo deixado pelo Estado social tem
sido ocupado por empresas tal como a Igreja Evangélica.
Graça Cury, do Aleph, aponta que é preciso ressaltar
efeitos, mas também suportar o vácuo.
Marcus André lembra que o nosso vácuo está
ligado ao resíduo do sintoma.
A quarta mesa, "Pensando o futuro", foi
um esforço coletivo, de alguns colegas da EBP, para tirar
consequências do trabalho realizado durante o dia e fazer
propostas. Marcus André, da Comissão Matemas, que
organizou o dossiê sobre a Regulamentação da
Psicanálise no Brasil, disse que não podemos mais
ficar no campo de reação. Temos um certo estilo de
vida para lidar com o resíduo. Isso não pode dar em
corporação, mas pode dar uma certa vitalidade à
Psicanálise. Devemos elaborar os nossos princípios
e fazê-los conhecidos. Acolher os restos e dar um destino
a eles. Marcus se interessa pelos militantes de Jesus, que considera
distintos dos militantes religiosos, onde pode haver ideal. Os militantes
de Jesus têm como marca a conversão pública
e o caráter empresarial.
Ariel Bogochvol lembra que o Colóquio, realizado na Casa
do Povo, coloca a utilidade social da Psicanálise contra
os projetos de lei que visam a sua Regulamentação.
Ele se interessa pela criação da ABRAP, que veste
uma roupagem científica e epistemológica, com uma
tendência totalizadora. A ABRAP quer reunir psicoterapeutas
(entre os quais o psicanalista), segundo cânones científicos.
Há uma contradição entre suas premissas e suas
conclusões. Estamos diante de um simulacro de Ciência.
Ariel lembra o Congresso da AMP: sem standards, mas não sem
princípios. Há um movimento de resistência à
ABRAP desencadeado por Jorge Forbes.
Ram Mandil nos diz que nem todos os futuros são para desejar,
pois alguns são para temer. A Psicanálise permitiria
passar de um futuro para temer a um futuro para desejar. Devemos
tolerar zonas livres do Direito, de vazio. Ram se interessa pela
maneira como uma prática organizada como a Medicina está
buscando a sua Regulamentação. A Psicanálise
subverte a posição do médico que perdeu seu
prestígio com o discurso da ciência e a erosão
da confiança na palavra do médico. Para Ram, a ação
analítica busca se responsabilizar pelas conseqüências
sociais do ato analítico. Ele alerta contra as soluções
anti-regulamentação específicas para os psicanalistas.
Propõe abrir novas portas para a cidade, incluindo Centros
de Atendimento Psicanalítico. O gozo tende a se alojar no
inútil e esse elemento é fundamental para considerarmos
a utilidade social da Psicanálise.
Elisa Alvarenga, debatedora da quarta mesa, não tem dúvidas
sobre a utilidade social da Psicanálise para tratar o sofrimento
e responsabilizar o sujeito. Aponta que Marcus, Ariel e Ram tomaram
três aspectos da nossa luta contra a Regulamentação:
os militantes de Jesus, a ABRAP e os médicos.
Iordan Gurgel, próximo Diretor da EBP, enumera algumas propostas:
elaborar uma carta de princípios ou um manifesto, cuidar
da vitalidade da Psicanálise na cidade, possibilitar o encontro
com o analista.
Marcus cita, no Rio, o início de um trabalho na favela. Ludmila
Faria cita o trabalho que realiza, em BH, em 5 favelas, o programa
Fica Vivo.
Romildo ressalta que o nosso Colóquio acrescentou elementos
à discussão sobre a utilidade social da Psicanálise:
existe uma certa antecipação da Psicanálise
à demanda, onde o desejo do analista se oferta. A idéia
é ir aos lugares e fazer experiências, que podem fracassar,
mas vão nos ensinar. Como dar voz ao desejo do analista?
Bárbara Guatimosim, da Escola do Campo Lacaniano, diz que
não devemos nos preocupar em ser maioria. Uma minoria resistente
se ocupa de um resto.
Sérgio Laia evoca a nossa capacidade para a diáspora:
também os analistas podem se encontrar e conversar entre
si. Podemos pensar outras atividades como essa.
Ricardo Moretson, do CFP, parabeniza a EBP: foi um debate fundamental,
hoje alguma coisa andou. Simplesmente reagir já não
basta. Hoje estamos na Casa do Povo, mas entre pares. Sugere que
novos encontros aconteçam com mais políticos e o Ministério
Público, com atores sociais que definem nossas vidas.
Francisco Goyatá, representando a Associação
Mineira de Psiquiatria, sugere uma série de eventos onde
ocupemos os lugares onde o povo está. Estão faltando
os enfermeiros, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, etc.
Iordan Gurgel encerra propondo uma passagem do privado ao público:
o espaço do Colóquio era privado, e ele propõe
elaborarmos uma Carta Pública, a Carta de Belo Horizonte.
O destino é o que se cumpre e depende de nós!
Belo Horizonte, 19.09.04.
Elisa Alvarenga
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